Sábado, 5 de Abril de 2008

A conspiração francesa

 

Inicie-se este post com o seguinte  exórdio : não tenho nada contra a França nem contra o seu povo. Na verdade, o seu chauvinismo exorbitante e o seu egocentrismo desmarcado, são para mim elementos mais propícios para a comédia do que para qualquer sentimento aversivo. É apenas uma forma de canalizar assertivamente algumas energias.

Descobri em "Bouvard e Pecuchet " de Gustave Flaubert, um tique bastante sintomático na cultura francesa, que até ao momento me tinha passado um pouco ao lado, não fosse a sua existência assinalada com alguma recorrência periódica.

Ao que quero chegar? Recuemos um pouco e iniciemos este raciocínio no tempo da Ordem Templária.

 

No Século XII, quando o rei Balduino II recebeu Hugues de Payens , Gogofredo de Saint Omer e mais sete cavaleiros para protegerem Jerusalém dos infiéis, deu-lhes como albergaria a estrebaria no edifício do Templo de Salomão. Tempo tiveram para escavar o local e, diz-se, que descobriram algo valioso. Esta descoberta, independentemente do seu conteúdo, foi suficientemente motivadora para que alguns dos cavaleiros  regressassem  à Europa a fim de comunicar o achado. A partir deste momento, a ordem cresceu e a Europa (França) sofreu um impulso substancial tanto a nível tecnológico, científico e económico. Alguns dizem que descobriram o ouro de Salomão e que assim enriqueceram.

 

Existe também uma teoria que diz que os cavaleiros terão descoberto a Arca da Aliança e que posteriormente a resgataram para França. Na catedral de Chartes pode-se até mesmo ver esculpido num dos pilares, o grupo de cavaleiros a transportar a Arca. E existe ainda o Opicinus de Canestris. Neste mapa do Mediterrâneo, segundo Jeanne Franchet , o olho de uma pomba sobrepõe-se  à ilha de Chipre (local para onde se crê ter sido transferida a Arca de Aliança após a queda da Terra Santa). Neste mapa existe ainda a representação de um leão Britânico junto do qual se "julga" ler "Rocela". No mesmo mapa aparece ainda a inscrição "apage indicu". Ora, Rocela será uma alusão a La Rochelle, um importante porto na costa oeste de França e para onde os cavaleiros da Ordem do Templo recorriam frequentemente. Quanto a "apage indicu", a mesma refere que apage significa "longe daqui" e indicu refere-se a "índios".

 

Conclusões a retirar. a) fui ver o significado de "apage" e ao que parece esta palavra vem do grego  άπαγε que significa qualquer coisa como "some-te daqui" ou "põe-te a milhas". Ainda hoje, o termo ainda é empregue  em alguns exorcismos católicos; b) Se tudo isto é certo, existe uma clara obstinação, ainda antes de Colombo, em confundir as Américas com as Índias; c)Se tudo isto continua a ser certo e Rocela é de facto uma referência ao porto de La Rochelle, a França terá sido o primeiro país da Europa central a descobrir a América. Sim, segundo alguns, a América já tinha sido descoberta, a Arca foi mandada para lá (?!) e foi por isso que, anos depois,  tantos missionários decidiram lá voltar a fim de reencontrar o valioso mobiliário.

 

Deixando o Novo Continente de lado. Alguns afirmam que os cavaleiros encontraram a localização do Santo Graal. E o que é exactamente o Graal? Existem várias teorias, mas a mais romântica, é aquela que conta que o Santo Graal é um código para designar o filho de Jesus e de Maria Madalena. Supostamente, "Graal" provém da formação das palavras "sangue real", "sangraal"; "Saint Graal". Sinceramente, não sei se a etimologia permite esta aglutinação, mas ciência posta à parte, este dito filho de Jesus veio parar a França, onde foi secretamente guardado por cavaleiros dando posteriormente origem à dinastia real (francesa) dos reis Merovíngios. Por falar em filhos de Jesus, outra lenda afere a uma filha e que esta corresponde à figura de Sara Kali, uma santa que repousa na igreja de Saint Michel, em França. Esta santa é uma das favoritas do povo cigano, pois tinha uma tez de pele escura e como tal era uma alusão à tolerância entre povos.

 

Aproveito o parágrafo para deixar aqui a minha opinião sobre este assunto: os cavaleiros da Ordem do Templo estiveram no Templo de Salomão. Descobriram algo precioso, não propriamente ouro, mas talvez livros e pergaminhos antigos com enunciados sobre matemática, engenharia, ciência e alguma cartografia. Estes documentos seriam possivelmente uma recolha dos conhecimentos do antigo Egípto, da extinta Babilónia, da antiga Grécia, de Roma, etc (Salomão era um poeta e um homem culto). Da matemática e da engenharia, os templários teriam desenvolvido a tecnologia ( não esqueçamos que os futuros detentores dos segredos dos templários seriam os Maçons - "pedreiros" em Francês). Por outro lado, poderá ter existido também algum mapa grego com a localização da actual América. Digo Grego porque lembro-me ter ter ouvido algures que se tinha descoberto entre os artefactos Vikings um mapa de origem grega no qual  estava indicado parte do continente Americano. Este último, ao que parece, deu origem ao famoso mapa da Vinland  (cuja sua cronologia foi recentemente questionada). Seja como for, estes presumíveis mapas terão sido trazidos para França e, cá por mim, terão sido destruídos ou estraviados pelos lacaios de Filipe o Belo durante a fatídica noite de Sexta-feira treze. No entanto, foi salvo em memória por alguns elementos que se refugiaram em Portugal e fundaram a Ordem de Cristo. Bons anos depois, desta ordem foi Grão Mestre o Infante D. Henrique o qual impulsionou Portugal para o descobrimento de novos mundos. Pronto, cá por mim deve ser algo como isto. Quanto à arca da aliança e ao(s) filho(s) de Jesus, isto não faço a mínima ideia.

 

Não me demorarei muito sobre a personagem se Saint Germain. Referirei apenas que é um nome francês e que esta personagem, pelos vistos foi grão-sacerdote da Ordem de Lord Zadkiel na Atlântida e que depois encarnou personalidades como Merlin, Cristovão Colombo, Francis Bacon o qual traduziu a Bíblia para Inglês e escreveu parte das obras de Shakespeare, etc.

Saint Germain

 

Já no Século XX, um golpe de mestre foi protagonizado por Pierre Plantard. Este senhor francês iniciou o seu golpe em 1956 quando decide fundar juntamente com outros indivíduos uma associação para "constituir uma ordem católica, destinada a restituir de uma forma moderna, conservando o seu carácter tradicionalista, o antigo cavaleiro, que foi, pela sua acção, a promotora de um ideal altamente moralizante (...)". A esta associação, Plantard baptizou-a de Sion, que era nada mais nada menos do que a localidade onde este tinha vivido. Este Priorado de Sion perde aos pouco as características políticas e toma uma postura mais mística. Plantard começa a aprepagoar que o Priorado tinha tido origem em Jerusalém no Século XI, intitula-se "Pierre Plantard de Saint -Claire" descendente da linhagem merovígia e logo de Cristo. Depois, a cereja em cima do bolo. Forja uma tabela de Grãos-Mestres envolvendo nomes de grandes personalidades históricas como Leonardo DaVinci, Sheakespeare, Voltaire, etc,  e insere secretamente esta lista nos Dossiers Secrets de Lobineau na Bibliteca Nacional de Paris. Tudo parecia ir bem e de forma súbtil, mesmo que algumas figuras credíveis, como Humberto Eco, não dessem muita importância a este documento "estranho". Até que em 1993, Plantard vê-se obrigado a confessar o seu logro devido a uma eclosão de escândalos financeiros que foi parar à barra dos tribunais franceses e, embora não envolvido, o nome de Priorado de Sion acabou por ser mensionado na investigação. Não se pode dizer que tenha abalado muito a história. Até ao momento em que o famoso "Código DaVinci" volta a pegar nesta lista forjada e a torna espinha dorçal da sua narrativa. Dan Brown defendeu-se depois afirmando-se ficcionista e não historiador (claro). Quanto a Plantard, devo referir que esta história é foi admirável na medida em que este foi sempre um homem solitário, que vivia com a mãe, e que fez do seu pequeno apartamento local sede do grandioso Priorado de Sion.

  

E terminarei este pensamento sobre a conspiração francesa referindo o livro que me despertou a atenção: "Bouvard et Pecuchet" de Gustave Flaubert. Após as duas personagens principais do livro se terem retirado para o campo, estas tornam-se agrónomos, arquitectos paisagistas, físicos, médicos, antropologistas, geologistas, historiadores, etc... Aquando da loucura sobre a história, o autor refere uma corrente de estudiosos da altura que afirmavam: os gauleses, antepassados dos franceses, adoravam vários deuses entre os quais o grande Teutatés (Toutatis) e Esus. Teutatés era o Saturno dos pagãos. "Saturno, quando reinava na Fenícia, desposou uma ninfa chamada Anobret, de quem teve um filho chamado Jeúde - e Anobret tem as feições de Sara e Jeúde foi sacrificado (ou quase foi) como Isaac; portanto Saturno [Teutatés] é abraão, de onde há que concluir que a religião dos gauleses tinha os mesmos princípios da dos Judeus." E depois continua relatando que o conhecimento druídico sobre botânica e medicina  tinha sido transmitido não de, mas aos filósofos da Antiga Grécia como Pitágoras e Platão. As afirmações estendem-se e emglobam teorias sobre o Antigo Egípto, o menir e o obelisco (já agora, chamemo-lhe Obelix), o vitelo de ouro, etc...

Pesquisei. E existe realmente uma corrente celta que afirma: juntando a letra "J",  proveniente do deus romano JúpiterEsus, deus gaulês, obtemos assim o nome de Jesus. Assim sendo, Jesus tinha um nome gaulês, logo francês. Flaubert , no seu típico humor subtil, no que diz respeito a esta teoria, refere: "Mas, deste povo (os gauleses), que dominava o mundo antigo, só restam pedras, ou isoladas ou em grupos de três, ou dispostas em galerias, ou formando cercas. (...) Como é possível que os monumentos dos gauleses sejam informes quando esses mesmos gauleses eram civilizados no tempo de Júlio César? Provinham, decerto, de um povo mais antigo..."

 Gustave Flaubert

 

Sem dúvida que muito mais haverá a dizer sobre este tema. O certo é que é uma sorte a história ter chegado hoje até nós da forma como nos é contada. Ou talvez não... Enfim, é caso para dizer: "Por Toutatis, estes gauleses são doidos!"

 

Mas talvez não sejam só eles...

 

"Goodness Gracious Me" - BBC

publicado por ikaros às 15:48
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