Sábado, 8 de Dezembro de 2007

Os profetas da desgraça

Creio que em Janeiro de 2008 vai entrar em vigor uma série de leis que regulamentarão novos costumes, as quais  nos ensinarão a sermos mais civilizados. Em nome da saúde pública, a restrição ao consumo de tabaco em locais públicos, e em alguns locais de trabalho, vai ser agora mais incisivo; ao que parece, o café deixará de ser servido em chávenas de porcelana para passar a ser consumido em pequenos copos de plástico; aos sacos de plástico dos supermercados, o estado irá cobrir uma taxa; os vendedores de castanhas já não poderão utilizar o emblemático cone construído com papel de jornal; entre outras coisas. A EDP anunciou que quer substituir os contadores de electricidade por outros mais modernos. A quem cabe pagar a nova maquineta? Não se sabe ainda. A CEE estipulou um prazo para os nossos canais de televisão começarem a transmitir a nossa grelha de excelentes programas por via digital. Em nome da uniformização, dizem eles. Entretanto, os galheteiros desapareceram das mesas dos restaurantes, as colheres de paus foram banidas, o Inglês ensina-se na escola primária e, embora se continue a martirizar touros em Barrancos, aboliu-se a tradicional "matança do porco" no resto do território nacional. As nossas crianças festejam o halloween e o S. Martinho foi para o galhete. Finalmente tornámo-nos mais civilizados... Quer dizer, pelo menos, à primeira vista, já não metemos nojo a ninguém.

 

É o progresso. É a saúde pública que está em jogo. É o futuro.  Enfim, temos de reconhecer que este é o caminho. Deve ser. Pessoalmente, apesar de ser fumador, há muito tempo que deixei de me deleitar com o meu apaziguante cigarro à mesa de um restaurante. O hábito de sair para dar uma fumarada já o tinha interiorizado. E também há muito que me abstive de saciar este vício em locais fechados. Por respeito. Mas a ASAE promete estar presente e zelar pelo nosso bem estar. Bem estar? Não sei. Pessoalmente, sempre gostei de sandes chungas consumidas em locais chungas. Quando comia um cachorro quente numa roulote à berma da estrada, sempre soube que aquelas não eram propriamente as condições mais salutáveis para as minhas delicadas entranhas, mas no entanto, nunca me coibi de fazer o meu pedido num destes locais. São manias. Por outro lado, ainda hoje não consigo frequentar piscinas públicas. Por muito cloro anti-bacterianos que possam introduzir na água, aquele frio recipiente azul sempre me fará lembrar uma enorme banheira imunda com centenas de corpos, com sovacos, pés, genitais e afins a serem banhados numa só água. Por mim, nunca lá porei uma unha que seja. E não venha nenhuma ASAE dizer o contrário: é uma questão de princípios.

 

E isto tudo para dizer o quê? Bem, não há opções. É isto e acabou. Quer o povo queira ou não. Mas resta-me esta estranheza, a leve suspeita de que tudo isto me foi impingido. Sim, eu sei que é necessário, mas neste momento não deixo de sentir uma leve sensação de que me estão a imobilizar o corpo aos poucos e poucos de um modo muito dissimulado. Esta forma de se criar leis, este tom paternalista por parte dos nossos governantes, que aos poucos nos livram da nicotina, dos vermes, da tacanhez, do colesterol...  Não sei. Naõ sei mesmo 

 

Por outro lado, e não querendo sucumbir à tentação de me tornar num Velho do Restelo,  acredito muito sinceramente que Portugal se está a tornar num país "para Inglês ver". Um país com TGV, aeroportos e ADSL hiper-rápido e depois onde a informação entope num terminal de correios que não funciona, ou numa empresa que açambarca alternativas, ou no emaranhado sistema de leis, que remete para uma centena de decretos que entretanto já prescreveram e que se cinjem agora pelo regulamento da nova portaria do ministério XPTO que ... 

Talvez seja assim mesmo o futuro: uma fruta  imaculada, gorda e luzidia. Que sabe a cartão e se desfaz como cortiça. (Há tanto tempo que não como um pêssego, daqueles em que a polpa está firmemente agarrada ao caroço, cuja a pele desliza apenas com a leve pressão dos dedos e em que o sumo doce e perfumado escorre pelas mãos e segue em rio até atingir a ponta dos cotovelos. Daqueles cultivados com cócó de vaca.)

 

O futuro: que saudades que tenho dele! 

 

 

                                                                                           

"Admirável Mundo Novo" de  Aldous Huxley                         "1984" de George Orwell 

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publicado por ikaros às 01:14
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