Segunda-feira, 7 de Setembro de 2009

Pequena história infantil para anarquistas

 

Era uma vez um homem que não queria ter país. Disseram-lhe que tinha nascido naquela terra e que portanto pertencia àquele país. Revoltado por ter sido vendido antes de ter nascido, decidiu fugir. Chegou à fronteira e, quando se preparava para sair, apareceu um homem com um bonito uniforme: “Alto!" Disse ele, " O que o senhor deseja?”. Então o homem que não queria ter país respondeu que queria daquele país porque ali não se sentia bem. Então o homem com um bonito uniforme respondeu: “Desculpe, mas para entrar neste país é preciso autorização.”. O homem que não queria ter país ficou surpreendido, afinal existia outro país ao lado do seu: eram portanto dois. Voltou para trás e foi buscar um mapa. Olhou bem e reparou que existiam muitos países à volta do seu. Aliás, estava completamente cercado de países. Ficou desanimado.

Um dia, um senhor com um ar muito importante, chegou ao pé dele e disse-lhe que tinha de pagar muito dinheiro. O homem que não queria ter país perguntou porquê e o homem com um ar muito importante respondeu: “Para ser cidadão deste país, o senhor tem de pagar.”. O homem que não queria ter país exclama então: “Mas eu não quero ter país! Não posso ficar aqui quietinho sem incomodar ninguém?”. Então o senhor com um ar muito importante explicou que se quisesse estar ali, a beber daquela água e a respirar daquele ar então teria de pagar. Para não arranjar problemas, o homem que não queria ter país pagou o que devia e o senhor com um ar muito importante foi-se embora.

Umas semanas depois, outro senhor com um ar muito importante chegou ao pé dele e disse-lhe que tinha de assinar muitos papéis. O homem que não queria ter país perguntou porquê e o outro homem com um ar muito importante respondeu: “Para se ser cidadão deste país, o senhor tem de assinar.”. O homem que não queria ter país volta a exclamar: “Mas eu não quero ter país! Não posso ficar aqui caladinho sem incomodar ninguém?”. Então o outro senhor com um ar muito importante explicou que se quisesse estar ali, a beber daquela água e a respirar daquele ar então teria de assinar. Para não arranjar mais problemas, o homem que não queria ter país assinou os papéis todos e o outro senhor com um ar muito importante foi-se embora.

Farto dos senhores importantes, o homem que não queria ter país, faz a mala e decide fugir daquele país chato. Decide fugir de noite para passar pelos outros países sem ser visto. Depois, quando estivesse muito longe, num sítio onde não houvesse países, ali construiria uma casa e ficaria lá a viver. Assim fez. Deu voltas e mais voltas à terra, navegou em rios e oceanos, escalou montanhas muito altas e atravessou desertos muito áridos, mas não conseguia encontrar um sítio sequer onde não houvesse países. Houve mesmo uma vez que se sentou para descansar numa pequena rocha perdida no meio do mar, e houve outro homem com um bonito uniforme que lhe disse que estava a invadir o seu país. O homem que não queria ter país estava desmoralizado.

Um dia, encontrou um sítio onde não via senhores com um ar muito importante e homens com um bonito uniforme. Perguntou a um homem muito pobre que por ali passava, que país era aquele. O homem muito pobre que por ali passava respondeu: “Isto?! Isto é o país de ninguém.”. O homem que não queria ter país ficou muito contente e pulou de alegria, mas depois fez uma nova pergunta: “E as pessoas? Onde estão as pessoas?”. O homem muito pobre que por ali passava respondeu: “Pessoas?! As pessoas fugiram.”. Então o homem que não queria ter país ficou muito triste outra vez. Reparou que à volta dele só havia casas destruídas e carros a arder e partiu de novo.

Ao fim de muitos anos, o homem que não queria ter país já estava velho e cansado e dizia: “Não descansarei até encontrar um lugar onde não haja países!”. E continuou.

Continuou por muitos anos e acabou por morrer. Pegaram nele e enterraram-no num país cujo nome não me lembro agora.

publicado por ikaros às 19:33
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2 comentários:
De Raven Kirsh a 15 de Novembro de 2009 às 16:05
Gostei do texto... É, ser livre, sem país é complicado. Mas as fronteiras diminuirão, assim espero e, quem sabe um dia as pessoas acordem apra o fato de que estamos todos na mesma Terra.
De fran a 12 de Agosto de 2014 às 08:49
tipico post de coletivista filho da mãe.
ainda nem conseguimos sair deste planeta, e já andam a decidir de quem é a lua. é por isso que sou misantrópico

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